"MATA SECA" É REFÚGIO DE FAUNA E FLORA


A vegetação apelidada de mata seca, que está no centro da polêmica entre produtores do Projeto Jaíba e a legislação ambiental, desempenha uma importante função para a fauna e a flora, segundo o Ministério do Meio Ambiente.
Ela se estende do norte de Minas - onde está o projeto de irrigação -, passa pelo oeste da Bahia e avança até o Piauí. A vegetação que se alonga por essa mancha verde e irregular pelo centro do Brasil é o habitat de aves e mamíferos e de diversas espécies de plantas.
"É um refúgio de flora e fauna, um corredor biológico que do seu lado esquerdo é Cerrado e do lado direito, Caatinga", afirma o diretor de Florestas do ministério, João de Deus Medeiros. "Esse corredor é um grande oásis."
O nome dessa vegetação é floresta estacional decidual ou semidecidual. Suas árvores ficam cheias de folhas por um breve período do ano, geralmente no verão. Na maior parte do ano, ficam bem ressequidas. A ponto de muita gente descrevê-las como uma espécie de Caatinga.
O estudo que identificou essa e outras matas como vegetações a serem protegidas pela Lei da Mata Atlântica foi realizado pelo IBGE e publicado em 2008. O estudo identificou regiões de mata em diversos pontos do Brasil cujas características permitiram que passassem a ser incluídas na Lei da Mata Atlântica.
"É um ecossistema raro em Minas, adaptado ao ambiente inóspito no norte do Estado, onde há secas muito longas e terra muito pobre", afirma a ambientalista Maria Dalci Ricas, presidente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente. De acordo com ela, essa vegetação é um dos quatro ou cinco locais de Minas onde ainda há uma concentração de onças pintadas, e que próximo de uma área de mata seca foi encontrado há alguns anos um cachorro do mato vinagre, espécie que muitos acreditavam extinta em Minas.
"Estima-se que uma vez derrubada, a mata seca leve cerca de 100 anos para retornar ao estágio em que estava. Isso por causa da pouca chuva e da terra pobre", explica a ambientalista.
A Assembleia Legislativa de Minas chegou a aprovar um projeto que retirava a mata seca do bioma Mata Atlântica. A lei, no entanto, foi decretada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça do Estado.
Segundo Medeiros, a Lei da Mata Atlântica confere proteção aos remanescentes da vegetação, mas abre espaço para desmate. Se a vegetação estiver em fase inicial de regeneração, a lei permite o uso daquela terra; em estágio médio, as restrições aumentam. "Não é que a economia fica engessada. Há muita desinformação em relação às regras que permitem o uso sustentável da Mata Atlântica. É desinformação ou então o interesse de alguns setores que querem que o interesse econômico sempre prevaleça." (Valor Econômico)